sexta-feira, 4 de agosto de 2017

" Vou comer camarão! "




Certa vez, ouvi o testemunho muito edificante de um missionário. Ele compartilhou que o sustento financeiro de sua família não vinha (e ainda não está) tão bem e certa noite, antes de dormir, reuniu sua esposa e filho pra dizer que todas as reservas financeiras haviam acabado e que também não tinham reservas de alimento para o outro dia. Então, eles, em oração, entregaram (confiaram) a Deus aquela situação. Usando o linguajar de Paulo, eles fizeram "conhecida, diante de Deus" (Fp 4.6) aquela tribulação.
Pode ser que você se pergunte: "Mas o que tem a ver a escassez de alimento e de dinheiro com a oração"? Bem, é na oração que demonstramos nossa limitação, nossa pequenez, nossa não-soberania, e, portanto, nossa dependência dAquele que é soberano e conhece cada uma de nossas necessidades antes mesmo que lho peçamos, mas que no seu plano eterno escolheu a oração como um dos canais de nos dar o que lhe pedimos de acordo com sua vontade decretiva. A oração nos humilha e engrandece a Deus que a tudo conhece e pode. Mas não é sobre a oração especificamente que quero falar, e sim sobre o que leva o crente a orar.
A exemplar atitude do missionário em sua oração familiar foi de confiança. E é isso mesmo o que se espera dos filhos de Deus: que vivam por confiança. Foi por viverem confiando em Deus que eles se dirigiram à Fonte da providência deles. Esta foi a grande lição que Deus deu ao profeta Habacuque: "o justo viverá por fé" (Hc 2.4b) ou "Confiando em Deus é que o justo vive". Uma implicação desta declaração, é que a confiança não é apenas a porta de entrada para a vida cristã (Rm 1.17; Gl 3.11) e poderíamos deixar de confiar em Deus após isso, não! De modo nenhum! A confiança também é o modo como o cristão vive a vida cristã (Hb 10.32-39). A confiança não ficou no passado, não serviu apenas para torna-lo filho adotivo, mas também faz parte do presente do filho de Deus. A confiança é o modo como o crente vive nesta terra repleta de alegrias e lamúrias. É confiando em Deus que o justo vive.
Quem ousaria dizer que a escassez que o missionário estava enfrentando era algo necessariamente bom. Na verdade, antes da queda, não existia escassez na terra. A escassez passou a existir com o egoísmo do homem. Pense, por exemplo, na quantidade de cristãos que não são fiéis nos seus dízimos e ofertas por puro egoísmo e reflita no mal que isto causa, por exemplo, na vida dos missionários que estão no campo "dependendo" de nossas ofertas e dízimos. Nosso pecado causa a escassez na vida dos missionários, trazendo o mal para suas famílias e ministérios e ainda tentamos aliviar a nossa consciência jogando a culpa do nosso próprio pecado de infidelidade e mesquinhez para a "crise" financeira do país ou para outro bode expiatório qualquer. Porém Deus torna o mal em bem na vida dos seus filhos. O que o Missionário Xavier só precisava fazer (e fez bem) era confiar em Deus, mesmo não entendendo completamente como se dá o agir de Deus. Ora Deus quer que almas sejam convertidas em Nova Jaguaribara, mas como, permite que seu servo passe por dificuldades?
Foi isto que Deus ensinou ao profeta Habacuque que não entendia dois males: um, presente e outro, iminente. O primeiro mal tinha relação com o retorno do povo às práticas pecaminosas logo após à reforma religiosa e social do rei Josias. A justiça estava sendo torcida, porque a lei de Deus havia sido desprezada e o povo declaradamente abandonara a teocracia pra viver em anarquia (destruição e violência). O profeta observava a situação piorando exponencialmente e não via, com seus olhos, vestígios de reversão. Isto o levou a entender que o mal dominava o povo de Deus enquanto que Deus não fazia nada pra zelar a honra do seu Santo nome, da sua santa lei e do seu povo chamado para ser santo. O profeta, então, questionou Deus: por que, Senhor, Tu que és santo permites o pecado no meio do teu povo? Onde estás que não me respondes? O profeta queria que Deus trouxesse justiça sobre seu povo, punisse o povo por causa de seus pecados. E se não bastasse o mal "desenfreado" internamente, o profeta recebeu a resposta de Deus! E nela havia outro problema que vinha de longe: os caldeus. Agora, digo "problema" na visão do profeta, porque na visão de Deus era a solução.
Se a primeira questão do profeta era: "Senhor, Tu não vais fazer nada para santificar teu povo e zelar pela santidade do teu Nome?" Bem, a resposta de Deus se segue. O poder bélico da Assíria havia enfraquecido e a Babilônia começava a expandir suas fronteiras como "águia quando mergulha pra devorar" (Hc 1.8). A resposta de Deus à primeira pergunta do profeta foi: "Sim, Habacuque, não estou dormindo, não estou sendo indiferente e nem fazendo vista grossa com os pecados do meu povo! Eu vou julga-los severamente!" O profeta entendeu na visão que Deus lhe deu que a Babilônia não avançava segurando tratados de paz, antes, "Todos vêm prontos para a violência. Suas hordas avançam como o vento do deserto e fazendo tantos prisioneiros como a areia da praia. Menosprezam os reis e zombam dos governantes. Riem de todas as cidades fortificadas, pois constroem rampas de terra e por elas as conquistam. Depois passam como o vento e prosseguem; homens carregados de culpa, e que têm por deus a sua própria força" (Hc 1.9-11).
Agora, o dilema do profeta não é mais se Deus vai ou não julgar o seu povo. Deus deixou claro que vai trazer a justiça no meio do seu povo e mostrou a ele não apenas que vai julga-lo como também a maneira de exercer o juízo. Aquela revelação, no entanto, deu um nó na mente do profeta, pois se não bastasse o mal do povo, agora Deus estava permitindo ou usando uma nação ímpia para julgar seu próprio povo. Mas como, ó Deus, questionou o profeta, se "Tu és tão puro de olhos, que não podes ver o mal e a opressão não podes contemplar; por que, pois, toleras os que procedem perfidamente e te calas quando o perverso devora aquele que é mais justo do que ele" (Hc 2.13)? Agora o profeta quer saber se isto é sábio, se é correto usar o ímpio pra julgar o justo!
O profeta sabia quem era Deus. Que é eterno e santo! E não só, como também é fiel, pois fez questão de afirmar "Não morreremos (Hc 1.12)", referindo-se ao fato de que Deus preservará Judá porque Deus prometera que "O cetro não se arredará de Judá, nem o bastão de entre seus pés, até que venha aquele (o Messias) para o que lhe pertence e a ele obedecerão os povos" (Gn 49.10). Porém, mesmo clamando com confiança no seu Deus, ainda assim, sua indagação continuava, pois não entendia perfeitamente os desígnios de Deus naquela situação. Não entendia como Deus poderia agir daquele maneira. Parece que o profeta estava questionando a sabedoria de Deus. Ora, ele não entendia porque tinha uma visão micro da situação e principalmente porque não é Deus. Ele estava com os pés na terra arrodeado de males, inserido bem no seio da injustiça escancarada e agora sabia que era alvo de um inimigo impiedoso iminente. Sua visão era micro e limitada, enquanto a perfeita análise cheia de sabedoria para aquela situação estava nos Céus, no alto e sublime Trono. Deus estava vendo todos aqueles pecados do povo e também conhecia muito bem a maldade da Babilônia. E em tudo isto, Deus sabia qual seria a melhor maneira de cuidar do seu povo. Deus não estava fazendo errado, mas o mais certo! Deus não estava fazendo de modo insensato, mas com sabedoria. Deus, sim, tem o perfeito entendimento das coisas, enquanto que o homem depende de Deus. Deus entende tudo, o homem, não, senão, seria o próprio Deus. Por isso, a lição divina (segunda resposta) para o profeta que não entendia perfeitamente a forma de Deus julgar e cuidar do seu povo foi simplesmente: Habacuque, confie em mim (Hc 2.4).
Parece que as tribulações do profeta sufocaram sua memória fazendo-o esquecer que Deus, sem se contaminar, usa a maldade humana para torna-la em bem para seu povo. Quando olhamos para a história de José, vemos Deus usando a maldade dos seus irmãos para preservar seu povo no Egito, garantindo a linhagem messiânica. Um pouco antes, pense nos sofrimentos do servo Jó, foi Deus usando a maldade de Satanás para que o servo Jó aprendesse mais de Deus (ao questionar a forma de Deus agir com os justos semelhantemente como Habacuque estava fazendo) e pudesse dizer: "Eu te conhecia só de ouvir, mas agora meus olhos te veem". Pense também no fato de Deus ter usado outra nação ímpia, a Assíria, para punir Efraim (as tribos do Norte). Porém quando entrou em batalha contra Judá na época do Rei Ezequias, Deus protegeu o reino do Sul dizimando pessoalmente 185 mil soldados assírios no próprio acampamento deles. Deus usou a maldade da Assíria para castigar Efraim, muito embora tenha os punidos pela maldade que fizeram contra o povo de Deus. E poderíamos nos perguntar: se Deus iria (como fez) usar um povo ímpio para castigar seu povo, por que não deixou que a Assíria fizesse tudo de uma vez, isto é, punir também o Sul? Bem, somos homens, Deus é Deus. Deus revelou ao profeta Habacuque que castigaria seu povo daquela maneira, usando a Babilônia e não a Assíria que nem existia mais, e, por isso, Deus disse simplesmente: "viva, Habacuque, esperando e confiando" (Hc 2.3-4). Se escolhi punir meu povo assim, que tens tu com isto?
Fato é que toda a mensagem de Habacuque era fruto do cuidado de Deus para com seu povo. Este ensino serviria para o remanescente fiel se manter confiante na soberania de Deus quando entrasse no cativeiro em poucos anos e também pra quando vissem e ouvissem às más notícias da destruição do Templo e de toda Sião. Deus já estava providenciando o conforto para o futuro e forte lamento deles na simples declaração: "o justo viverá pela sua fé". O profeta Habacuque aprendeu a confiar ainda mais em Deus, mesmo não entendendo tim-tim por tim-tim das ações sábias e soberanas de Deus. Ele cantou: "Mesmo não florescendo a figueira, não havendo uvas nas videiras; mesmo falhando a safra de azeitonas, não havendo produção de alimento nas lavouras, nem ovelhas no curral nem bois nos estábulos, ainda assim eu exultarei no Senhor e me alegrarei no Deus da minha salvação. O Senhor Soberano é a minha força; ele faz os meus pés como os do cervo; ele me habilita a andar em lugares altos. Para o mestre de música. Para os meus instrumentos de cordas" (Hc 3.17-19).
Tiago sabendo disto nos conclama: "Meus irmãos, tende por motivo de toda alegria o passardes por várias provações, sabendo que a provação da vossa fé, uma vez confirmada, produz perseverança. Ora, a perseverança deve ter ação completa, para que sejais perfeitos e íntegros, em nada deficientes" (Tg 1.2-4). Paulo simplesmente fala: "Alegrai-vos sempre no Senhor; outra vez digo: alegrai-vos" (Fp 4.4). Por que Tiago e Paulo nos convoca à alegria? Porque se o Senhor é nosso pastor, logo, nada vai nos faltar que seja necessário para nossa vida aqui na terra. Pelo contrário, ele nos dará e colocará o que é necessário em nossas vidas para chegarmos a alcançar o propósito para o que nos chamou que é a nossa semelhança a Cristo: "Sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito. Porquanto aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos (Rm 8.29-30)". A expressão de Paulo sabemos denota confiança ou estejamos convictos de que Deus reverte todo mal que nos advém para o nosso maior bem, para que "quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele, porque haveremos de vê-lo como ele é" (I Jo 3.2).
Na escassez, Deus chega com a solução de um modo ou de outro, mas nunca deixará desamparado o aflito e necessitado. "Ao aflito livra por meio da sua aflição e pela opressão lhe abre os ouvidos" (Jó 36.15); "Pois não desprezou, nem abominou a dor do aflito, nem ocultou dele o rosto, mas o ouviu, quando lhe gritou por socorro" (Sl 22.24); "Volta-te para mim e tem compaixão, porque estou sozinho e aflito" (Sl 25.16); "Clamou este aflito, e o SENHOR o ouviu e o livrou de todas as suas tribulações" (Sl 34.6); "Todos os meus ossos dirão: SENHOR, quem contigo se assemelha? Pois livras o aflito daquele que é demais forte para ele, o mísero e o necessitado, dos seus extorsionários" (Sl 35.10); "Quanto a mim, porém, amargurado e aflito, ponha-me o teu socorro, ó Deus, em alto refúgio" (Sl 69.29); "Porque ele acode ao necessitado que clama e também ao aflito e ao desvalido" (Sl 72.12); "Não fique envergonhado o oprimido; louvem o teu nome o aflito e o necessitado" (Sl 74.21); "Inclina, SENHOR, os ouvidos e responde-me, pois estou aflito e necessitado" (Sl 86.1); "Oração do aflito que, desfalecido, derrama o seu queixume perante o SENHOR - Ouve, SENHOR, a minha súplica, e cheguem a ti os meus clamores" (Sl 102.2); "Porque a minha mão fez todas estas coisas, e todas vieram a existir, diz o SENHOR, mas o homem para quem olharei é este: o aflito e abatido de espírito e que treme da minha palavra" (Is 66,2).
Agora, por solução não significa nem sempre que Deus supre com o que achamos ser o melhor. Às vezes nosso juízo só afastaria o bem (semelhança a Cristo) de nós. Mas perceba o que o autor aos hebreus dentro do contexto em que estamos trabalhando fala: "Pois, naquilo que ele mesmo sofreu, tendo sido tentado, é poderoso para socorrer os que são tentados... Acheguemo-nos, portanto, confiadamente, junto ao trono da graça, a fim de recebermos misericórdia e acharmos graça para socorro em ocasião oportuna" (Hb 2.18; 4.16). Também, com Paulo aprendemos que Deus ou suprirá a escassez da qual julgamos, muitas vezes ser necessário, ou nos dará a devida resistência para sabermos suportar a situação (I Co 10.13).
Portanto, missionários e evangelistas e todos os que estão nos campos branquejantes anunciando o Evangelho aos perdidos, confiem em Deus. Não queiram entender tudo perfeitamente, pois somos limitados! Apenas confie naquele que mede os céus de uma ponta à outra com a palma de sua mão e que todas as nações são como um pingo que cai de um balde (Is 40.12-31)! Perceba que não é uma confiança cega, infundada ou sem razão, não! Mas uma confiança sabendo quem é Deus, aquele que é o Eterno que não possui sombra alguma de variação ou mudança e que é fiel para cumprir suas promessas aos seus filhos. Confie neste Deus Trino. Sem dúvidas, muitas tribulações das mais distintas e intensas possíveis vocês hão de enfrentar, porque vivemos num mundo cheio de maldade, no entanto, não há nada fora do eterno plano do nosso Deus. Descanse, espere e confie em Deus.
Agora, dirigindo-me também a todos os demais leitores, confiem em Deus. E cuidado para não fazer de suas riquezas, fama, inteligência, força, habilidades, etc. o esteio de suas vidas! Pois o Senhor fez o rei da Babilônia comer capim de burro por causa da arrogância do seu coração até aprender que o Altíssimo tem domínio sobre o reino dos homens e o dá a quem quer e ainda Deus o fez glorifica-Lo com uma das declarações mais lindas e exaltantes à Majestade Divina de toda a Escritura (leia em Dn 4). Penso que esta exaltação da boca de Nabucodonosor à Deus foi registrada para que todos os arrogantes saibam que um dia todo joelho se dobrará diante do Senhor. Então, confie em Deus e não em você ou em outra coisa qualquer.
Aos que sofrem injustiças, confiem em Deus. Tem uma jovem senhora que se converteu recentemente aqui no bairro. Durante o início do seu discipulado, assassinaram seu irmão que era casado e pai. Eu disse pra ela: confie em Deus. Confie na justiça divina, sabendo que pecado algum deste assassino ficará impune. A justiça humana pode até deixa-lo impune, mas Deus não o deixará. Ou ele pagará eternamente no inferno cada um de seus pecados, inclusive o assassinato de seu irmão, ou, caso Deus o tenha escolhido para a vida eterna, Cristo já pagou pelos pecados dele na Cruz, inclusive, o pecado do assassinato de seu irmão. Mas fique certa de que o crime não ficou ou ficará impune. Ainda desafiei nossa irmã em Cristo a orar por misericórdia para o assassino, pra que Deus leve sua Palavra salvífica aos ouvidos dele, pra que seja regenerado por meio do Espírito e assim arrependa-se e deposite sua confiança em Cristo que justifica os pecadores, baseado no seu sacrifício.
Aos deprimidos e ansiosos, confiem em Deus, porque vocês não podem acrescentar um minuto sequer de um dia às suas vidas e nem entender toda a complexidade deste mundo tenebroso, isto pertence apenas ao Senhor. Aos que fazem planos, confiem em Deus, dizendo "se Deus quiser..." porque qual é a garantia que estareis vivos amanhã.
Naquela noite, antes de dormirem e depois de orarem confiantes em Deus, mesmo sem entenderem perfeitamente os planos eternos de Deus ao enviar aquela situação (ainda presente) de escassez financeira, mas certos de uma coisa: que Deus cuida de seus filhos de distintas formas enviando tudo o que é necessário para que cada um se assemelhe mais a Cristo, o missionário foi importunado por alguém, já altas horas da noite. Ele batia e gritava por seu nome do lado de fora de sua residência. O missionário ao chegar lá reconheceu que era seu vizinho, incrédulo, segurando um recipiente e que imediatamente lhe perguntou: "Missionário, você come camarão?"

Nenhum comentário:

Postar um comentário