segunda-feira, 7 de agosto de 2017

A petulância de Satanás e a firmeza de Jesus na glória do Pai



Satanás sabia que Jesus era o Messias (Mt 3.17) e, por isso, à luz da revelação vetero-testamentária, sabia também que deveria sofrer primeiro em favor dos eleitos (Is 53), destruir as obras das trevas (Is 9, 42, 61.1) e só depois ser exaltado entre às nações no seu reino eterno dado por Deus (Sl 52.13-15). Esta sequência era um prato cheio pro ardiloso, por isso, ‘‘Levou-o ainda o diabo a um monte muito alto, mostrou-lhe todos os reinos do mundo e a glória deles e lhe disse: Tudo isto te darei se, prostrado, me adorares’’ (Mt 4.8-9).
Nem sempre a antecipação de um benefício é correta e, neste caso, a proposta foi muito audaciosa. A ilusão maligna consistia nisso: receber a glória do reino messiânico antecipadamente, sem sofrimentos e pelas mãos erradas.
Quem gosta de sofrer? E pior, quem gosta da notícia de que vai ser preciso tomar injeção? Chegamos a implorar: um comprimido não resolveria? E quem não gostaria de sacar o FGTS agora?
O consciente sofrimento de Jesus que enfrentaria na Cruz pelos eleitos não se compara a nenhum outro. O Filho sabia quem era seu Pai e também quão cheio de ira estava o cálice nas mãos do Soberano pronto para derramar sobre ele quando estivesse no Madeiro. A proposta satânica era no mínimo aliviadora: obter o que o Pai lhe daria sem precisar receber o que o Pai derramaria.
Esta linha de tentação era tão atrativa que foi insistida algumas vezes durante o ministério de Jesus. Por exemplo, após anunciar aos discípulos sua morte, Pedro, consciente de sua messianidade, disse-lhe: ‘‘Tem compaixão de ti, Senhor; isso de modo algum te acontecerá’’ (Mt 16.22). Mas a resposta de Jesus a Pedro foi reveladora: ‘‘Arreda, Satanás! Tu és para mim pedra de tropeço, porque não cogitas das coisas de Deus, e sim das dos homens’’ (Mt 16.23).
Jesus já estava debilitado fisicamente no deserto e a lógica do tentador era simples: ‘‘posso faze-lo sofrer ainda mais antecipando em sua imaginação o quanto sofrerá quando beber o cálice de ira, assim, minha proposta de antecipação será irrecusável’’. Eliminar o sofrimento na vida de Jesus foi o ‘‘carro chefe’’ de sua estratégia aqui na terra.
Mas seu problema é que não conhecia a determinação do Filho em glorificar o Pai ou pelo menos se fazia de desentendido. Parecia não saber que seu amor por Deus estava acima dos sofrimentos eternos que enfrentaria na Cruz. Amor provado por uma obediência motivada pela Santidade do Pai. Amor demonstrado em completa resignação de qualquer conforto transitório dos homens que Satanás pudesse dar. Sua dedicação à glória do Pai é eterna e fama mundana alguma poderia ser superior ao seu deleite no Pai.
Satanás não poderia terminar sua tentação de outra forma, seu argumento culminaria na idolatria. Agora, diga-me, como Deus se curvaria à criatura? Petulância! Neste ponto, idolatria seria a rejeição e discordância deliberada e arbitrária do plano de Deus, porém o Deus Filho, mesmo sofrendo fisicamente e mesmo com sua mente dia após dia focada no sofrimento infinito que a Cruz lhe traria, sobretudo, focado na sua paixão pela glória do Pai, ordenou ‘‘Retira-te, Satanás’’ e a razão é simples: ‘‘Ao Senhor, teu Deus, adorarás, e só a ele darás culto’’ (Mt 4.10). Aleluia!
Não houve sofrimento que Jesus não soubesse que enfrentaria, mas isto não o desanimava a ponto de descumprir a vontade do Pai. Seus sofrimentos foram os mais reais e intensos possíveis, porém a Palavra de Deus estava guardada em seu coração e por ela ele vivia. Cumprir a Palavra do seu Deus por amor a Ele era seu foco. Mateus contrastou esta verdade com o descaso do povo israelita quando no deserto desprezou a Palavra e perderam a boa vida na terra que manava leite e mel, mesmo depois de Deus ter enfatizado várias vezes em Levítico: cumpram minha vontade e vivam por ela (Lv 18.5;19.37; 20.22; 22.31; 26.3). Especialmente neste último capítulo, Deus alertou que se cumprissem seriam abençoados, senão, maldições quais nunca sofreram viriam como castigo sobre eles. Porém os alertas de Deus não suscitaram temor em seus corações e caíram na loucura da idolatria deliberada durante toda sua história até chegar Jesus que os ensinou como deveriam ter vivido: amando ao seu Deus de todo o coração.
O resultado da firmeza do Filho no amor pela glória do Pai é que seu amor se estendia até nós. Ao dedicar sua vida ao Pai, o Filho estava também amando àqueles que o Pai amou com amor mais especial, com o amor eletivo. Com outras palavras, Jesus rejeitou a proposta de Satanás por amor ao Pai e consequentemente por amor aos eleitos, por amor a você, irmão (a). De sua mente, o Pai e os eleitos não saiam: ‘‘Ora, antes da Festa da Páscoa, sabendo Jesus que era chegada a sua hora de passar deste mundo para o Pai, tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até ao fim’’ (Jo 13.1).
Se Satanás queria trazer algum sofrimento à mente do Salvador, achando que seria vantagem propor a glória do reino antecipadamente e a eliminação do sofrer na Cruz, ele não conseguiu! A razão é simples: o Pai, eu e você e todos os demais eleitos nunca, mas nunca mesmo saíram da mente do generoso Salvador. Ele não descobriu, foi acordado na eternidade. E com este propósito veio à terra: glorificar o Pai, salvando pecadores como eu e você. Aleluia! ‘‘Por isso, o Pai me ama, porque eu dou a minha vida para a reassumir. Ninguém a tira de mim; pelo contrário, eu espontaneamente a dou. Tenho autoridade para a entregar e também para reavê-la. este mandato recebi de meu Pai’’ (Jo 10.17-18). Este foco na glória do Pai e a extensão do seu amor até nós, lembra-me desses versos:
Entra Mestre, descansa um pouco
Estás cansado, estás sedento e rouco
Dorme Mestre, a casa é Tua
Já fechei porta e janela pra rua

Deixou me falando só
Dormiu tão pesado fazia dó
Como será Mestre este sonho Teu?
Sonhas como homem? Sonhas como Deus?
Sonhas com a glória que tinhas com o Pai, na luz?
Ou sonhas com a cruz?

Perdoa Mestre, mas já é hora
Uma multidão te espera lá fora
Estás decidido, não te detenho
Vais curando até chegar ao lenho

Partiu, fica a paz em mim,
Fica sala com cheiro de jasmim
Vai verter a vida do corpo Seu,
Pra levar a culpa de alguém como eu,
Pra lavar o sujo do meu próprio eu,
Levar-me puro a Deus
(Stênio Marcius)